CINEMA

“Rânia”* – Por: Carol Pitzer

Foto: Divulgação

Poesia em imagens. Rânia é assim: um filme delicado e sutil que trata do universo feminino de uma forma que só uma mulher é capaz. Tudo na abordagem do filme é de uma leveza extraordinária: a fotografia, as relações entre os personagens, as metáforas entre imagem e estado de espírito… E mesmo assim trata de temas sérios como violência, pobreza e prostituição sem apelar pra vulgaridade que o público brasileiro está acostumado.

A personagem título, Rânia (Graziela Felix), é uma adolescente que vive na periferia de Fortaleza e como menina pobre precisa dividir seu tempo entre as tarefas domésticas, a escola, seu emprego em um quiosque na praia e sua paixão: a dança. Sua melhor amiga, Zizi (Nataly Rocha) trabalha em uma boate erótica como dançarina e a introduz no mundo de facilidades e diversões da noite. Porém, a chegada de uma bailarina profissional à cidade abre caminhos e perspectivas para a menina.

O roteiro de Roberta Marques e Luisa Marques, cheio de poesia, apresenta essa protagonista através de suas batalhas diárias. A própria Rânia apresenta algumas das personagens principais em voice over, colocando também seu ponto de vista sobre as mesmas. As cenas entre Rânia e Zizi são de uma espontaneidade ímpar: as amigas são mostradas em diversas situações corriqueiras – tomando sorvete, passeando em uma feirinha de artesanato, tomando banho de mar, se arrumando para sair – e conversando sobre os assuntos mais variados. Conversas tipicamente femininas sobre seus desejos, suas expectativas e o confronto destes com a realidade.

Foto: DivulgaçãoAs cenas de dança são de uma força peculiar. Graziela Felix tem uma expressão corporal fantástica e é impossível tirar os olhos da tela quando ela está em movimento. Quando em certa altura do filme, Rânia diz que está com muitos problemas e que só esquece-se deles quando dança, o espectador já está completamente convencido dessa informação. Além disso a presença constante do céu e do mar na cena, reitera o desejo de fuga e liberdade da protagonista. Em certo momento, um navio encalhado e enferrujado torna-se metáfora daquela passagem da vida de Rânia.

A fotografia colabora com a feminilidade do filme, mostrando essas mulheres quase como parte da paisagem. Mesmo no ambiente erótico da boate, a cena não se vulgariza, criando cenas sensuais sem violentar a imagem da mulher. Ao contrário da habitual linguagem da televisão, a mulher não é mostrada como um objeto de consumo, mas como um sujeito com sentimentos e contradições. Essas “meninas comuns” ficam lindas na frente dessa lente, que – como não podia deixar de ser – é comandada por uma mulher.

*O filme estreia nessa sexta (22) em São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza
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BAARIA, A PORTA DO VENTO – Por Carol Pitzer

O novo filme de Giuseppe Tornatore é um filme histórico. Em diversos sentidos. Histórico porque trata de diversos momentos da história italiana com a sutileza que apenas um verdadeiro artista possui. Histórico pela riqueza de detalhes de cada uma dessas épocas que resgata com a precisão que só alguém que viveu alguns desses momentos pode ter. Histórico, no sentido de que vai entrar para a história como um dos mais belos filmes italianos já feitos.

O novo filme do diretor de “Cinema Paradiso” é um filme-sonho. Em diversos sentidos. É um filme-sonho por evocar as imagens como uma memória distante, meio confusa, meio sobreposta, mas com um profundo significado. Filme-sonho, por sua estrutura, que mistura passado e presente deixando o final do filme em aberto para a imaginação do espectador delirar sobre seu próprio passado e seu próprio presente. Filme-sonho pelos diversos símbolos evocados durante a narrativa, de caráter altamente premonitório que apenas os sonhos possuem.

Filme auto-biográfico, “Baaria: A porta do vento“, revive as memórias de infância – e provavelmente muitas memórias de narrativas ouvidas durante a infância – do diretor italiano Giuseppe Tornatore na pequena cidade onde nasceu e viveu até os 28 anos. É interessante apontar que o personagem principal, Peppino, tem o mesmo nome do pai do diretor e que o filho mais novo deste personagem (que aparece apenas no final do filme) seria uma representação mais nova do diretor quando deixou a Sicília. Vale ainda destacar que Pietro, filho de Peppino, assim como o personagem principal de Cinema Paradiso, coleciona pedaços de negativos de filmes, indicando a paixão deste personagem (e também do diretor) pelo cinema e homenageando mais uma vez os grandes filmes que ficaram na memória de Giuseppe Tornatore.

Este é um daqueles filmes que merece ser visto infinitas vezes, por suas pequenas minúcias e sutilezas, como por exemplo o negociante de dólares que aparece repetidamente após o término da guerra e a maneira como a desvalorização da moeda italiana é sinalizada. Como um sonho, seus símbolos estão bem escondidos. Como história, seu significado político pode incitar muitas discussões, das quais a mais interessante é aquela que parte da resposta de Peppino à pergunta do filho sobre “O que é um reformista?”. As mudanças do povoado e do próprio indíviduo fazem-se muito claras da maneira mais poética possível.

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Marco Ricca faz estreia de gala com “Cabeça a Prêmio”

Por: Carol Pitzer

A primeira sensação que se tem ao começar a assistir “Cabeça a prêmio” é que se está assistindo a um filme de Beto Brant. A explicação vem logo nos créditos iniciais: o filme é baseado em um livro de Marçal Aquino – parceiro de Beto Brant no roteiro  de três de seus filmes de maior sucesso – “Os Matadores” (1998), “Ação entre Amigos” (1998) e “O Invasor” (2001).

Assim sendo, a temática deste filme já é bastante conhecida dos fãs daquele diretor: violência e corrupção estão no centro de um mundo onde os valores estão falidos e não há possibilidade de fuga. Marco Ricca não decepciona em sua primeira experiência na cadeira da direção.

O filme conta a história de dois ricos irmãos fazendeiros (Fúlvio Estafanini e Otávio Muller) no centro-oeste do país que possuem negócios ilegais e uma “gang” a seu dispor para executar as “tarefas sujas”. Eduardo Moscovis e Cassio Gabus Mendes vivem dois ex-policiais que estão a serviço da família de fazendeiros. O personagem principal é um piloto de avião que, fugindo dos radares oficiais, traz mercadorias da Bolívia para os irmãos criminosos. Este piloto conhece a filha de um dos fazendeiros (Alice Braga) e os dois começam um romance. Mas sair de uma vida de crimes – mesmo que não diretamente involvido – pode não ser tão fácil quanto parece.

A linguagem do filme acompanha a saga de seus personagens e a câmera aproxima-se apenas nos momentos certos. Os diálogos são primorosos e os atores encontraram o tom exato e exprimem toda a angústia desse mundo pouco palatável de Marçal Aquino. Aplausos especiais para o ator uruguaio Daniel Hendler, que dá um show no papel principal, fazendo com que o público compreenda cada mudança de humor e enxergue cada momento de tensão em seu rosto. Excelente estréia do ator Marco Ricca na direção.

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QUANDO ME APAIXONO (Por: Carol Pitzer)

A tradução para o português do título do filme de estréia de Helen Hunt como diretora pode levar a um engano crucial: este não é um filme de amor. “Then she found me ” (numa tradução literal: Então ela me encontrou) é um filme que fala de família. Escorregando um pouco pelo caminho do melodrama, o filme conta a história de uma professora de meia idade que passa por sucessivas crises em sua vida.

April Epner  (Helen Hunt) é uma professora judia beirando os 40 anos que deseja profundamente ter filhos. Seu marido (Matthew Broderick), porém, decide que não está preparado para essa vida e a abandona. Logo em seguida, sua mãe adotiva morre e uma mulher que diz ser sua mãe biológica (Bette Midler) surge inesperadamente em sua vida.  O filme se desenvolve numa sucessão de conflitos em um roteiro mal costurado onde nem as piadas funcionam direito. Ainda assim, a premissa do filme é interessante: o que é família de verdade? Laços familiares são apenas biológicos ou são muito mais que isso? Logicamente, o romance sugerido no título em português acontece, mas serve apenas para sublinhar o ponto de vista apresentado desde o início de que uma família pode ser composta por diversos laços que não os sanguineos.

Helen Hunt dirigiu antes desse filme alguns episódios do seriado Mad about you e a estética televisiva influenciou muito os resultados desse primeiro vôo como diretora da atriz. A iluminação é muito uniforme, chegando a ser insuficiente em determinadas cenas e a câmera não consegue alcançar a leveza exigida pela história. Não há muita profundidade de campo e o excesso de planos próximos incomoda um pouco na tela grande. O filme se salva pela atuação impecável de todos os atores, que se sustenta inclusive sobre alguns diálogos bastante fracos e forçados.

 

 

ENCONTRO EXPLOSIVO: diversão e risadas garantidas

Quem imaginou que Tom Cruise e Cameron Diaz poderiam ter alguma química no cinema? Alguns críticos continuam dizendo que a química entre eles é fraca, mas que “Encontro Explosivo” funciona como blockbuster, funciona. Explosões, perseguições, lutas, tiroteios…todos esses elementos constituem um bom filme de ação. Alie isso a um roteiro engraçado e despretensioso e o público acaba conquistado. “Knight and Day” (título do filme em inglês – trocadilho feito com o sobrenome do personagem de Cruise) tem tudo isso e sim, diverte bastante.

O filme conta a história de um agente da CIA (Tom Cruise) que, no meio de uma fuga (se assim podemos chamar) encontra não tão casualmente assim com a especialista em automóveis June Havens (Cameron Diaz) no aeroporto. A premissa de que nada é por acaso fica clara logo nos primeiros minutos do longa. Daí em diante, parte-se para uma sucessão de lutas em pleno ar, escapadas, fugas, tiroteios e cenas mirabolantes de fazer inveja a James Bond e Ethan Hunt (personagem de Tom Cruise em “Missão Impossível“)…que fique claro que os atores realizaram a maioria das cenas de ação.

Para Tom Cruise isso não é problema algum; desde que pilotou os jatos F-15 de “Top Gun“, na década de 80, ninguém mais duvida de seus predicados em cena; dublê é algo que ele só usa em última instãncia. Já Cameron Diaz se destaca pela espontaneidade nas tomadas cômicas; a sensação que temos é que ela realmente se divertiu gravando o filme. Ela grita e o público ri, a lógica é essa!  Durante pré-estreia exclusiva no Rio de Janeiro, o casal revelou ter sido excelente a experiência de trabalharem como parceiros em cena.

Óbviamente já esperamos o final do filme, mas vale destacar a trajetória do mesmo até o estabelecimento do segundo conflito, a excelente direção das cenas de ação, o roteiro, pouco contextualizado, mas divertido e por último, mas não menos importante, as belíssimas locações. Vale ressaltar, para todos os nerds e cinéfilos de plantão, as consecutivas referências e satiras a 007, Houdini e Star Trek (quem encontrar mais alguma referência, conte-nos!!). Se quiserem relaxar sem compromisso com o pensar, “Encontro Explosivo” é uma ótima pedida.

ENCONTRO EXPLOSIVO (Knight and Day, USA, 2010). Ação – Comédia / 20th Century Fox. Direção: James Mangold. Com: Tom Cruise, Cameron Diaz. 109 min. Classificação: 14 anos.

 

DZI CROQUETTES: dos palcos para a telona

Senhoras e senhores, gostaria de comunicar o lançamento do documentário musical Dzi Croquettes, que estreia nesta sexta (16) em sete cidades: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Goiânia e Curitiba.

Premiado no Brasil e no mundo, o longa de estreia dos diretores Tatiana Issa e Raphael Alvarez resgata a história de um grupo com uma postura irreverente e ousada, formado por bailarinos e atores que foi um dos maiores símbolos da contracultura dos anos 70. Para isso, usa vídeos de imagens inéditas de shows e bastidores combinado com depoimento de artistas renomados da cultura brasileira para falar de um grupo que usou a ironia e a inteligência para chamar a atenção das pessoas e fazer história em plena ditadura. Conseguiu.

Os espetáculos revolucionaram os palcos com performances de homens com barba cultivada e pernas cabeludas, que chocavam e conquistavam as platéias cobertos de purpurina e vestindo roupas femininas e saltos altíssimos, formado por Lennie Dale, Wagner Ribeiro, Ciro Barcelos, Cláudio Gaya, Reginaldo de Poly, Rogério de Poly, Cláudio Tovar, Paulo Bacellar, Carlinhos Machado, Benedictus Lacerda, Eloy Simões, Bayard Tonelli e Roberto de Rodrigues.

Dzi Croquettes
Brasil, 2009, 110 min.
Direção: Tatiana Issa e Raphael Alvarez
Edição: Raphael Alvarez
Roteiro: Tatiana Issa
Música Original: Cláudio Lins
Fotografia: Jorge Galo

Com depoimentos de Liza Minelli, Miguel Falabella, Pedro Cardoso, Maria Zilda, Jorge Fernando, Ney Matogrosso, Claudia Raia, Amir Haddad, Nelson Motta, Carlos Miéle, Leiloca e Lidoca.

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